Transcrição: [Vinheta]
Agora: ONCB Entrevista. A Rádio ONCB dá voz a convidados especiais. Assuntos diversos, inclusão e acessibilidade. ONCB Entrevista.
Gustavo Torniero:
Agora, aqui na Rádio ONCB, a gente vai falar sobre os benefícios e limitações da inteligência artificial para profissionais que trabalham com audiodescrição. Pra falar sobre esse assunto, eu, Gustavo Torniero, converso agora com Felipe Monteiro. Ele que é consultor em audiodescrição e uma pessoa cega. Felipe, vamos começar falando sobre os benefícios. Quais são eles tanto para roteiristas como para consultores? Hoje a gente sabe que existem ferramentas que fazem uma descrição super detalhada de uma imagem, como é o caso da inteligência artificial utilizada pelo aplicativo Be My Eyes.
Felipe Monteiro:
Oi, Gustavo. Antes de mais nada, muito obrigado aí pelo convite em poder falar um pouquinho mais sobre os benefícios da inteligência artificial, principalmente para nós que somos profissionais da audiodescrição. Ela pode contribuir muito nesse esboço, nesse primeiro roteiro que nós chamamos de roteiro parcial, porque ela traz descrição de vários elementos e isso pode contribuir bastante.
Eu penso sempre no contexto educacional, eu, que sou da educação. Pode ser uma ferramenta muito importante para os professores que têm muitas carências nas escolas brasileiras. Então, a inteligência artificial pode contribuir bastante na acessibilização dessas imagens. Nós sabemos que os estudantes lidam com muitas imagens no seu dia a dia.
Gustavo:
Agora, se por um lado essas descrições que surgiram e que são extremamente detalhadas e feitas por inteligência artificial podem beneficiar o usuário que não tem acesso ao conteúdo e também beneficiar o profissional que trabalha com audiodescrição, por outro a gente tem as limitações dessas ferramentas. E eu queria que você falasse delas agora pra gente.
Felipe:
Pois é, Gustavo, tem algumas limitações sim. Por exemplo, se você pede para inteligência artificial descrever uma imagem que possa ter algum conteúdo relacionado a algo sexual, por exemplo, ela já bloqueia e não faz a descrição para você. Por exemplo, uma pessoa com roupa de banho numa praia, por exemplo, ela pode considerar isso como um material ofensivo e não descrever para você. E também no contexto profissional da audiodescrição, a gente percebe que essas descrições, elas não seguem as diretrizes da audiodescrição, não seguem uma ordem lógica.
Nós que somos profissionais da audiodescrição, nós nos preocupamos com o usuário que vai receber essa audiodescrição. Então, nós nos preocupamos com o vocabulário que vai ser utilizado. Enfim, diferentes diretrizes mesmo que nós seguimos que a inteligência artificial não segue.
E outra coisa que é bem importante, que me chama bastante atenção nessas descrições que são feitas pela inteligência artificial, é a questão da inferência, que é algo que a gente se policia bastante para não imprimir nossa opinião pessoal. E a inteligência artificial, ela traz muito dessas opiniões e ela acaba misturando também as descrições da imagem com a contextualização daquela imagem. Então, por exemplo, a gente pede para descrever uma bola de futebol, ela descreve essa bola, dá opinião sobre a bola e ainda traz uma contextualização, falando sobre a importância da bola de futebol dentro do contexto dos campeonatos, enfim, que é algo que a gente não faz dentro do corpo da audiodescrição.
Gustavo:
É preciso ter cuidado mesmo ao utilizar essas ferramentas, Felipe, porque elas podem, inclusive, dar informações incorretas sobre uma determinada foto, o que os especialistas chamam de alucinações. Mas elas são benéficas, possuem limitações e riscos. A partir disso, eu queria, para finalizar, que você desse algumas dicas de como utilizar de forma ética essas ferramentas. E claro, se você também quiser dar alguma dica de algum recurso, algum aplicativo que faça uma descrição satisfatória na maior parte das vezes, sinta-se à vontade.
Felipe:
Isso mesmo, Gustavo. É preciso ter parcimônia para utilizar a inteligência artificial. Nós que somos pessoas com deficiência visual, podemos utilizar a inteligência artificial como aliada no nosso dia a dia para identificar objetos, cenas, enfim. Mas, para nós que somos profissionais, ela vem como mais um recurso que vai dar apoio para as nossas pesquisas, porque nós fazemos muitas pesquisas enquanto estamos elaborando um roteiro de audiodescrição. Então, a inteligência artificial pode contribuir bastante nesse processo. E eu tenho utilizado a Sara, que é a inteligência artificial do WhatsApp, e tenho ficado muito satisfeito, porque tem dado resultados muito precisos e bem completos.
Gustavo:
Esse foi Felipe Monteiro, consultor em áudio descrição, falando sobre os limites e os benefícios do uso da inteligência artificial por profissionais da tradução de imagens em palavras. Falou Gustavo Torniero para Rádio ONCB. O som de todas as vozes.
[Vinheta]
Você ouviu ONCB Entrevista na Rádio que é o som de todas as vozes!